Circuito Universitário em Cena é a surpresa do Festival Isnard Azevedo

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

Durante o 18.º Festival Isnard Azevedo aconteceu o “Circuito Universitário em Cena”, em que sete peças nascidas na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) saíram das fronteiras da academia e chegaram ao grande público. Cinco peças são resultado da disciplina ministrada, inicialmente, por Vera Collaço e, posteriormente, por Brígida Miranda. As outras duas peças resultaram da disciplina de Montagem Teatral do ano de 2011.

            O que se pode inferir nesta experiência? Primeiro: o Curso de Artes Cênicas da   Udesc assume um papel importante no sentido de alargar seu mundo, sair de seu casulo, expor suas experiências criativas. Há uma tendência, não apenas da Udesc, mas das outras universidades que produzem e ensinam artes, dos alunos e professores se encastelarem e se consumirem como se fossem um mundo à parte, inacessível ao público comum. O circuito universitário foi uma ação em sentido contrário a essa regra autofágica das academias. A equipe capitaneada por Luanda Wilk não mediu esforços para que as sete peças acontecessem durante o festival, sendo que cinco ocuparam o Espaço Arco-íris, na Travessa Cultural Ratclif e duas foram apresentadas no Ceart/Udesc.

            O segundo ponto interessante dessa iniciativa foi perceber que as peças montadas pelos alunos são donas de uma força poética e criativa vista em bem poucas peças da mostra oficial. Nas suas teses sobre o teatro, Alain Badiou afirma que o teatro “é uma experiência, material e textual, da simplificação. Separa o que está embaralhado e confuso, e essa simplificação guia as verdades que ele é capaz”. Num tempo em que simplificar parece ser uma ofensa para muitos realizadores profissionais, os alunos demonstraram que nem tudo está confuso e embaralhado, que há ainda a capacidade de se fazer um teatro que exponha de forma contundente o humano, em suas belezas e em suas agruras.

            As peças “Beatriz” de Ana Paula Beling, “Chá Preto” de Juliana Richel, “Tamis” de Carolina Janning , “A saudade é como um líquido que transborda ou, para Teresa” de Anderson do Carmo, “Posseidon Bar” de Andrés Tissier e Rangel Correa, “Odisseia” de Paulo Balardim e “Baden Baden” de Vicente Concilio demonstram que, apesar de serem experiências de alunos iniciantes, pulsam com uma linguagem própria, se aproximam da ideia de “cerimônia mágica” na definição precisa de Antonin Artaud, que também afirma que o “teatro só poderá voltar a ser ele próprio no dia em que tiver achado a sua razão de ser, no dia que tiver encontrado, de forma material, imediatamente eficaz, o sentido de uma certa ação ritual e religiosa, ação de dissociação psicológica, de dilaceração orgânica, de sublimação espiritual decisiva a qual ele estava primitivamente destinado”.

            As sete peças da cena universitária pulsam nesse sentido, além de optarem pela simplificação teorizada por Badiou. Diante de um festival em que a maioria das peças selecionadas não corresponderam às expectativas, sejam estéticas ou técnicas, veio da mostra paralela, dos criadores iniciantes os lampejos de criatividades sempre tão necessários para manter o teatro vivo. E se o teatro é arte do abismo, do risco e da incerteza esses alunos estão no caminho correto.  

            Nestes trabalhos identificamos o nascimento dos nossos futuros atores, diretores, iluminadores, figurinistas e dramaturgos. Se, como temos afirmado constantemente, o teatro feitoem Santa Catarinapassa por um excelente momento, o prognóstico para o futuro é bastante promissor. Ana Paula Beling, Juliana Richel e Carolina Janning, por exemplo, formam o trio de mulheres que, em suas primeiras direções, já nos apresentam uma digital poética. Essas meninas, se continuarem a pesquisa que apresentaram no “Circuito Universitário em Cena”, podem provocar uma renovação na cena do teatro feito na Capital.

O mais curioso é que todo esse talento está pulsando dentro da universidade, onde geralmente, pulsam as pretensões descabidas e o vício da autofagia. A curadora do evento, Luanda Wilk, afirma “meu maior prazer é fornecer as condições (mesmo que básicas) para que os trabalhos feitos dentro do meio acadêmico extrapolem as barreiras visíveis e invisíveis criadas por nós mesmos e cheguem a toda comunidade, sei que ainda há muito que fazer, porém minha palavra preferida é “façamos”. A meu ver, não podemos esperar que governos, estados, fundações, diretores e professores façam algo, devemos tomar nossa atitude e responsabilidade sobre o que fazemos e o que não fazemos acomodados em reclamação e comodismo”. E acrescenta: “este é o princípio de um sonho pessoal realizado, uma grande batalha travada com muita garra e paixão”.

            É claro que estamos diante de um trabalho germinal, de alunos fazendo seus experimentos, correndo seus riscos, buscando suas poéticas e suas linguagens, portanto, é necessária a devida contextualização e o cuidado na análise. O que é possível afirmar, sem o risco do exagero e do erro, é que a maioria dos trabalhos apresentados na Travessa Cultural Ratclif, apresenta um teatro vivo, humano, poético. Parece que a meninada absorveu bem alguns ensinamentos: o essencial do teatro é o ator e espectador (Grotowski), teatro é vida (Peter Brook) e teatro é ato único (Artaud). Então, vida longa ao “Circuito Universitário em Cena” e que o Festival Isnard Azevedo absorva o projeto em suas próximas edições e faça uma urgente e necessária reflexão acerca do modelo de curadoria que vem usando.

                                                            

 

Originalmente publicado em http://revistaosiris.wordpress.com/2011/10/15/471/

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Transbordamentos cênicos

Os atores-bailarinos já estão em cena quando o público entra. Os espectadores se posicionam ao redor e a ação começa. Um jogo lento, tão lento, que se leva um tempo para perceber que há movimento. Em um segundo, tudo muda e o jogo torna-se vivaz e fluído pelo restante da apresentação.

Saudade é como liquido que transborda ou para Teresa nasceu de uma tristeza sem fim, da dor de uma perda que mexe com a pessoa de uma forma profunda e permanente. Não querendo que a dor virasse só dor, ela foi transformada em uma ideia e em um mote criador para um espetáculo.

Pensando no conceito de dobra, a dobra do corpo, a dobra do tempo que passa, a dobra da pele que envelhece, o diretor Anderson Luiz do Carmo se uniu a Oto Henrique e Junior Soares e, através de uma pesquisa juntos, criaram partituras corporais que trazem essa saudade que transborda. A pesquisa corporal começou com a busca pela dobra no próprio corpo, de como o corpo se dobra e se adapta ao chão e o que precisa fazer para conseguir aperfeiçoar esses movimentos.

Os corpos em cena se testam ao limite da flexibilidade, da mudança de velocidade dos movimentos, que se tornam até brutais em certos momentos. Um corpo dá apoio para o outro e, do mesmo jeito que o oferece, o tira, colocando os atores-bailarinos em um jogo corporal vivo e belo, aonde um depende do outro para manter-se.O ambiente que permeia tudo é quase vazio, havendo apenas um móbile de tsurus e uma grande quantidade de folhas de papel. O papel, que também se dobra, traz a finalização do espetáculo, em um encerramento delicado e gentil, perfeito para falar de um tema tão difícil quanto a saudade que todos temos. 

                                                                                                                                                                                                       Texto: Nina Bamberg
                                                                                                                                                                                                        Fotos: Stefani Santos
 
Originalmente publicado em: http://ufsctock.com/muitamistura/artes-o-corpo/cobertura-transbordamentos-cenicos/
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A saudade é como líquido que transborda, ou, para Teresa

Não li o projeto de pesquisa para composição, então, as anotações abaixo relacionam os seguintes conhecimentos: título, programa, uma pergunta para o diretor (“quem é Teresa?”) e o trabalho cênico que assisti.

A produção tem como ponto de partida a pergunta: “como meu corpo sente saudades?”. As respostas enunciadas no programa se articulam a dança:

foto de paulo henrique wolf
  1. A experiência de sentir saudades é algo pessoal e físico e, neste sentido, o diretor sabiamente conduziu um processo para estimular cada um dos intérpretes a criar uma possibilidade de resposta no próprio corpo.  A dramaturgia no corpo foi tecida a partir de percepções singulares que, se modificaram em processos de relação e modificação mútuos.
  2. “A saudade é como líquido que transborda” remete a ideia de um corpo que chora e transpira, corpo líquido, que se esparrama no espaço. Esse corpo foi bem construído na dança de Anderson Luiz do Carmo.
  3. A saudade na pessoa de Junior Soares se aproximou de um corpo em hesitação, dança-sensação de não saber exatamente como reagir à falta. Seu mover se fez no terreno do instável (como o dançar nas pontas dos pés).
  4. O corpo da saudade composto por Oto Henrique pareceu não ter controle dos próprios membros, pois cada parte determinava uma vontade em posturas descoordenadas. Vontade de desfazer ou refazer vínculos?
  5. Saudade é “dor intensa” que vira “pequeno incômodo”. Por vezes o corpo realizou gestos virtuosos e arriscados, tombos (ainda que haja treino e hábito, não provocam dor?), movimentos com partes do corpo contorcidas e superalongadas (levemente desconfortáveis?). 
  6. Um corpo que sente falta é um corpo dilacerado? Quebrado e fragmentado?
  7. Danças de um corpo único que se faz com três, permanece em pausa e se move em velocidade acelerada (variações no uso do tempo-espaço). Estrutura de interdependência, de pertencimento. Saudade é sempre em relação a. Quando há falta e separação, o corpo desaba.
  8. “Para Teresa”. Quem é Teresa? O diretor informou que é a sua falecida avó. Trabalho estimulado pelas inúmeras marcas ou dobras que um corpo ganha ao longo do tempo, as quais são intensificadas na velhice de um corpo. O corpo que se dobra pela ação do tempo e da gravidade, como os corpos em queda na cena se deixando levar. Nas relações entre os três, corpos se apoiavam e equilibravam para produzir outras dobras.
  9. Muito interessante o trabalho do corpo a partir das suas possibilidades de “dobrar”. Corpos elásticos não cessaram de se reinventar em dobras. 
  10. O uso do peso do corpo em variações de pontos de apoio e diferentes modos de (des)articular  as partes do corpo foram opções nítidas exploradas pelos três bailarinos.
  11. Uso da improvisação em cena. Trabalho processual, aberto ao imprevisto, gerado na contaminação dos corpos. É sempre valorosa a opção pelo desafio.
  12. Os móbiles com pássaros de origami – outra referência forte às dobras – modelaram uma dramaturgia mais poética na cena. Todos juntos ao final (descendo do teto ou sendo empurrados por sopros) sugerem um encontro (no ninho, na casa) em que tudo é descanso.

Por fim, considero o trabalho de dança dirigido por Anderson do Carmo simples e honesto em seus propósitos, notadamente com potencial de desenvolvimento e criação de outros afetos. Centrada na dramaturgia corporal e suas relações, trata-se de uma composição de dança forte e delicada, como um complexo origami.

Jussara Xavier

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a saudade é como líquido que transborda, ou, para teresa

5. meu corpo saudoso chora. muito facilmente. não só em lágrimas, mas em vários formatos de soluço que reivindicam a presença de algo que não está mais ali. meu corpo saudoso busca nas entranhas os pedaços que, de alguma maneira, confortam. encolhendo, esticando, transpirando. dor intensa que em alguns dias é só um pequeno incômodo.
4. não sei o que fazer com as mãos e ficar em pé é difícil, os braços ficam muito vazios e  não consigo abrir a boca, os pés parecem frios como se os dedos fossem enrijecer;
3. como se pudesse acreditar que a não ação congelaria um último segundo antes da partida,  frustração de uma corrida sem linha de chegada, reanimar a partir do inanimado, construir;
2. saudade: palavra latina intraduzível que se refere a recordação nostálgica relativa a falta de alguém ou algo;
1. corpo: porção de matéria por onde atravessam forças das mais variadas;
como o [meu] corpo sente saudades?

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